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"Eppur si muove"

GFAJ-1: O golpe de misericórdia

A 2 de Dezembro de 2010, cientistas de todo o mundo pensaram que as noções que tínhamos de Biologia iam sofrer uma revolução enorme; a descoberta anunciada de que uma bactéria descoberta em Mono Lake, Califórnia, podia incorporar arsénio no seu DNA em vez do comum fósforo iria mudar aquilo que sabíamos sobre a bioquímica básica dos seres vivos. Para além disso, seria a primeira evidência da existência de uma “biosfera-sombra”, isto é, um conjunto de microorganismos com uma bioquímica e sistema metabólico diferentes da restante vida na Terra. Uma descoberta deste género teria imensas implicações, abrindo caminho para temas como a origem da vida na Terra e a possibilidade da existência de vida em outros planetas, baseada numa química que nos poderia ser desconhecida.

A descoberta de uma bactéria que utilizasse arsénio em substituição do fósforo seria a primeira descoberta que apontaria para a existência de uma biosfera-sombra.

Apesar das implicações de tal descoberta, o estudo feito por Felisa Wolf-Simon et al e anunciado com grande pompa pela NASA teve um impacto diferente do esperado: as suas implicações foram não tantas no âmbito da Biologia e Bioquímica, mas mais no âmbito de como a Ciência é feita e o que deve melhorar para garantir que se continue a fazer ciência de qualidade.

A estirpe GFAJ-1 que supostamente tinha a “espinha dorsal” do seu DNA composta por arsénio em substituição do fósforo.

De facto, logo após o anúncio da NASA choveram críticas ao estudo, sendo que na altura escrevi inclusive sobre isso.

Uma das cientistas que teve uma voz mais ativa relativamente à má ciência que rodeou todo este assunto foi Rosie Redfield, que levou as mãos à obra e tentou recriar o estudo efetuado por Felisa Wolfe-Simon para verificar se chega às mesmas conclusões (é de notar aqui que uma característica da Ciência bem feita é que pode ser recriada – daí a necessidade de aquando da publicação de um artigo referir todos os aspetos técnicos do estudo, para que outros cientistas o possam recriar e confirmar ou refutar).

Contrariando o paradigma da publicação científica atual, Rosie Redfield publicou no seu blog o que estava a ser feito ao longo do seu estudo, permitindo assim ao público leigo e a outros cientistas seguir em tempo quase real o desenvolvimento do estudo. Este tornou-se nas redes sociais o exemplo mais comentado de Ciência Aberta, e a sua importância exaltada principalmente por permitir que pessoas alheias ao funcionamento da Ciência percebam como ela se desenvolve.

Ontem, no Joint Congress of Evolutionary Biology Rosie Refield falou sobre toda esta problemática, explicando não apenas como o estudo por Felisa Wolfe-Simon foi refutado (concluindo assim que ainda não há evidências nenhumas que apontem na direção da existência de uma biosfera-sombra), mas falando também do processo de publicação de estudos e das complicações que surgem, por vezes, devido à pressão efetuada pelas revistas mais importantes, tais como a Science, no que toca à proibição dos investigadores falarem abertamente dos seus estudos antes de estes terem sido publicados. O escritor Carl Zimmer utilizou o seu blog para relatar em tempo real a apresentação de Rosie Redfield. Este pode ser lido aqui.

Falando em estudos, houve ontem também a publicação de dois (aqui e aqui) – um dos quais escrito por Rosie Redfield -, que demonstram que a bactéria GFAJ-1 é dependente do fósforo, apesar de ser resistente ao arsénio (que, devido às suas semelhanças com o fósforo, é venenoso para a grande maioria dos organismos, incluindo os seres humanos).

Atualização

No blog da Associação Viver a Ciência foi publicado um post sobre a conferência, onde os pontos abordados por Rosie Redfield se encontram mais detalhados. Leitura altamente aconselhada.

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2 Responses to GFAJ-1: O golpe de misericórdia

  1. andrelevy 9 de July de 2012 at 17:02

    Viva NunoM, estás tb na conferência? Excelente peça a tua. Ambos saímos entusiasmados da conferência, pelos vistos. Se puderes, manda-me um mail. André

    • NunoM 9 de July de 2012 at 18:07

      Olá!
      Não, não estou em conferência nenhuma infelizmente :(
      Tento apenas estar atento a ela através das redes sociais como o twitter e de blogs de pessoas da ciência.

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