Os taxonomistas são cientistas que gostam de organizar os organismos vivos em várias categorias, sendo que essa organização pode ser feita, por exemplo, com base nas relações filogenéticas entre os organismos, isto é, as suas relações evolutivas. Dado que estas classificações são artificiais na medida em que uma pessoa pode definir um sistema de organização diferente (com base em características morfológicas, por exemplo, ou até com base na utilidade económica dos organismo, sendo este método de organização o preferido dos agiotas banqueiros), vários sistemas podem ser encontrados.
Um desses sistemas, proposto por Carl Woese*, divide os organismos vivos em três domínios: Bacteria, Archaea e Eukaryota. O nome de cada domínio é auto-explicativo, mas o domínio Bacteria engloba todas as bactérias, o domínio Archaea engloba as archaea (ou arquea, ou arqueia .. eu vou-me ficar por archaea) e o Eukaryotca todos os organismos eucariotas, nos quais nos incluímos.

Carl Woese (1928 – 2012)
A divisão entre eucariotas e bactérias é bastante evidente através da análise ao microscópio dos dois tipos de células. Uma das diferenças mais evidentes é o tamanho, sendo que as células eucarióticas são em média bastante maiores do que as bactérias. Ao contrário das bactérias, os eucariotas possuem um núcleo, que consiste numa membrana a proteger o seu material genético – note-se no entanto que isto nao significa que o material genético bacteriano anda disperso pela célula. Ainda relativamente ao material genético, o modo como este se organiza também difere entre bactérias e eucariotas: nos eucariotas o material genético encontra-se organizado em vários cromossomas lineares, enquanto nas bactérias o material genético encontra-se organizado num único cromossoma circular. Estas diferenças têm posteriormente diferenças a nível de replicação e expressão genética em ambos os organismos. Uma outra diferença consiste no facto das células eucarióticas possuírem organelos, que se encontram ausentes nas bactérias. Organelos consistem em subunidades celulares protegidas por uma membrana plasmática e com uma função definida: um exemplo é a mitocôndria, organelo responsável por, entre outros, converter a energia dos nutrientes em energia utilizável pela célula sob a forma de ATP. Outros organelos incluem os retículos endoplasmáticas e os cloroplastos, presentes em plantas e algas.

A: Bacillus anthracis, uma bactéria cuja largura é de cerca de 1.1 μm (1μm = 0.0001 cm) e comprimento de cerca de 4 μm.
B: Saccharomyces cerevisiae, cujo tamanho é de cerca de 5.5 μm de diâmetro.
Ambas as fotografias foram obtidas por microscopia eletrónica de transmissão e permitem distinguir a complexidade entre ambas as células, se definirmos complexidade como sendo o número de estruturas bem definidas no interior das células.
Uma célula típica do nosso fígado tem um diâmetro de cerca de 50 μm, e uma ameba (organismo unicelular eucariótico) tem entre 200 e 300 μm de diâmetro.
A bactéria com maior tamanho que se conhece é a Thiomargarita namibiensis (750 μm); é de notar que esta é uma completa excepção à regra.
Uma célula típica do nosso fígado tem um diâmetro de cerca de 50 μm, e uma ameba (organismo unicelular eucariótico) tem entre 200 e 300 μm de diâmetro. A imagem A foi retirada daqui e a imagem B daqui.
As archaea são estruturalmente semelhantes às bactérias, razão pela qual a sua distinção não foi feita até Carl Woese se ter dedicado ao estudo da biologia molecular de cada um dos tipos de organismo. A bioquímica de bactérias e archaeas revelou-se ser tão distinta que Woese considerou adequado classificá-las em domínios distintos.
Uma das diferenças observa-se a nível das membranas celulares. As membranas celulares são parte constituinte de qualquer tipo de célula. No nosso caso e no caso das bactérias a membrana celular é uma bicamada fosfolipídica. Os fosfolípidos são moléculas anfipáticas, querendo esta palavra dizer que uma das zonas da molécula é polar e outra zona apolar. A polaridade das moléculas vai determinar o modo como interagem com outras moléculas, incluindo as moléculas dos solventes em que estes compostos se encontram. Quando fosfolípidos se encontram em solução aquosa, estes organizam-se de modo a que a zona polar (ou hidrofílica) se encontre em contacto com a água e de modo a que a zona apolar se encontre resguardada deste solvente. Apesar de moléculas anfipáticas se poderem organizar de maneiras diferentes mas que garantem que estas premissas se verifiquem, no caso dos fosfolípidos em particular ocorre organização em bicamadas:

Esquema de uma bicamada fosfolipídica. O fosfolípido é o conjunto de uma esfera preta e de duas “pernas” – a cabeça corresponde à zona hidrofílica ou polar e a cauda à zona hidrofóbica ou apolar. A organização em bicamada garante que apenas as cabeças hidrofílicas se encontrem em contacto com as moléculas de água. Não gozem com o esquema, foi feito no Paint.
É de notar ainda um pormenor no tipo de ligação química existente nos fosfolípidos. Os fosfolípidos consistem numa molécula de glicerol à qual se encontra ligada um grupo fosfato e dois ácidos gordos. O glicerol possui três grupos hidroxilo, pelo que a reação com os ácidos gordos resulta em duas ligações do tipo éster.
No caso das archaea uma das diferenças começa precisamente na ausência das ligações éster. Apesar de uma das unidades da membrana ser igualmente uma molécula de glicerol com substituintes nos grupos -OH, no caso dos lípidos eles encontram-se ligados através de uma ligação do tipo éter. Ainda relativamente aos lípidos, no caso das archaea eles não são derivados de ácidos gordos. Em vez disso, são unidades repetitivas de isopreno. A bicamada deixa também de ser bi, passando a ser mono. Apesar da organização ser semelhante à da imagem anterior, as extremidades das caudas hidrofílicas encontram-se covalentemente ligadas, resultando numa monocamada (no entanto é possível encontrar membranas onde há uma mistura entre bi e monocamadas). Outras características que diferem das membranas das bactérias e eucariotas é a existência de anéis nas cadeias hidrofóbicas das membranas, que se encontram ausentes quer nos eucariotas como nas bactérias.

Algumas diferenças entre a composição das membranas das archaea (A) e das bactérias (B).
Existem também diferenças relativamente ao material genético. No caso das bactérias, o DNA que se encontra num cromossoma circular praticamente não está associado com proteínas. No caso dos eucariotas o DNA encontra-se extremamente empacotado, existindo proteínas chamadas histonas que têm um papel preponderante na organização destas moléculas. No caso das archaea existem também proteínas cujo papel é semelhante ao desempenhado pelas histonas nos eucariotas. Existem outras diferenças entre os três domínios que não serão abordadas, e reconheço que as diferenças aqui expostas levam a perguntar o que raio torna afinal as bactérias tão diferentes das archaea que justifique a criação de um domínio para separar bactérias de archaea; no entanto, o meu objetivo era apenas falar na existência destes três tipos de células para poder falar de uma das hipóteses para o aparecimento daquelas que são mais complexas – as células eucarióticas.
Começando agora a falar na origem das células eucarióticas per se:
Ignorando como ocorreu a origem da vida, uma vez que essa questão não tem interesse para esta discussão, pode-se pensar em duas hipóteses:
- A vida surgiu independentemente três vezes, dando origem às bactérias, archaea e eucariotas;
- A vida surgiu e a partir de um ancestral comum surgiram os três tipos de células mencionados;
- A vida surgiu e a partir de um ancestral comum surgiram bactérias e archaea, e a partir das archaea surgiram eucariotas ou a partir das bactérias surgiram os eucariotas;
- A vida surgiu e a partir de um ancestral comum surgiram bactérias e archaea e através de uma fusão entre estes domínios surgiram as células eucariotas;
- A vida surgiu e desenvolveu-se formando um eucariota que originou bactérias e archaeas.
Obviamente podem ser feitas mais combinações, tais como terem surgidos eucariotas e archaeas de um ancestral comum, sendo que os eucariotas deram origem aos procariotas, e por aí fora.
Se considerarmos o primeiro ponto, é necessário explicar qual a razão para se verificarem características universais aos três ramos da vida. Por exemplo, pegue-se no código genético que é praticamente universal: será que se justifica que ele tenha surgido três vezes independentemente quando, ainda para mais, sabemos hoje que ele pode ter alguma flexibilidade, precisamente porque há organismos com códigos diferentes? É pouco provável. Como tal, ignoremos a primeira hipótese.
Pegando agora na última hipótese, parece também ser pouco provável porque estaríamos a assumir que a vida surgiu e se desenvolveu imediatamente em algo complexo. Eu não estou a dizer que durante a Evolução não possa haver perda de complexidade (até porque há!), mas esta hipótese implicaria que a vida originou-se a partir da funcionalização de moléculas simples num organismo já complexo que, só depois, é que resultou em organismos que são mais simples. Ou seja, faz sentido que um organismo complexo origine organismos menos complexos, mas não faz sentido que o organismo complexo surja antes de organismos menos complexos, implicando que apesar da Evolução não ser um processo linear, é necessário que haja um desenvolvimento gradual na direção do aumento de complexidade (que, aí sim, se poderá desenvolver de maneira a aumentá-la gradualmente ou a reduzi-la).
As outras três hipóteses parecem ser mais robustas a este tipo de refutação básica; contudo, vou dar um salto e dizer que a Teoria Endossimbiótica para a origem das células eucarióticas já está bem estabelecida. Esta teoria, baseada em dados filogenéticos e citológicos, mostra que há uma probabilidade muito grande das células eucarióticas terem surgido a partir da fusão dos dois domínios: archaea e bactéria.
As evidências fortes para essa Teoria é a existência de DNA em organelos como as mitocôndrias e os cloroplastos, que apontam para um passado livre da célula que agora as alberga. Outras evidências relacionam-se com a misturada de características de archaeas/bactérias que as células eucarióticas têm. Por exemplo, as células eucarióticas têm membranas tipicamente bacterianas, mas têm um mecanismo genético de transcrição e tradução mais semelhante ao das archaea. Ora, estes dados acabam por invalidar as 1.ª e 2.ª hipóteses.
Os leitores poderão agora atirar-me à cara que é irrelevante se uma célula eucariótica possui mitocôndrias com DNA próprio, uma vez que pode ter efetivamente ocorrido uma endossimbiose após a formação do núcleo e das outras estruturas eucarióticas, sendo que o núcleo é precisamente o que dá o nome a estas células (eucariota significa em grego “verdadeiro núcleo”, em oposição aos procariotas (bactérias + archaea), que não têm o seu material genético rodeado por uma membrana). Já lá vamos.
O que torna as coisas interessantes agora é que dizer que houve uma endossimbiose entre bactérias e archaeas não chega para explicar a origem das células eucarióticas. Não podemos simplesmente dizer “houve mutações aleatórias que levaram à formação de uma simbiose que é, atualmente, inquebrável (pode ser quebrada, mas tanto mitocôndria como célula de origem morrem) que foram naturalmente selecionadas ao longo do tempo”. É necessário sugerir hipóteses para o aparecimento da simbiose e para a necessidade de a tornar inquebrável; é necessário propôr pressões evolutivas que tenham contribuído para o seu sucesso e, mais do que isso, é necessário falsificar a hipótese. Ora, nós neste assunto estamos a lidar com uma questão que é naturalmente especulativa. Como, por conseguinte, a poderemos falsificar? Bem, uma maneira é verificar no mundo contemporâneo organismos ou associações de organismos que nos possam dar pistas sobre o que possa ter acontecido quando os eucariotas ainda não eram conhecidos deste planeta.
Esta hipótese, proposta por Martin e Müller, tem como premissa a existência de uma relação endossimbiótica na qual uma archaea é o hospedeiro e uma bactéria o simbionte.
Porquê a escolha? As archaeas têm um sistema genético mais semelhante ao dos eucariotas do que as bactérias; como tal, os genes nucleares devem derivar de uma archaea. Em termos metabólicos, contudo, as enzimas presentes nos eucariotas são mais semelhantes às enzimas bacterianas.
Se queremos explorar o facto do metabolismo dos eucariontes ser o resultado da evolução do metabolismo bacteriano, é interessante analisar os eucariontes amitocondriados. Estes eucariontes podem ser de dois tipos: os amitocondriados de tipo I não possuem nenhum organelo onde ocorre a compartimentalização das reações metabólicas que visam a obtenção de energia. Nos amitocondriados de tipo II esta compartimentalização existe; contudo, em vez de terem mitocôndrias, estes organismos têm hidrogenossomas. Este organelo existe em eucariontes anaeróbicos como é o caso da Trichomona vaginalis, que é um protozoário com alguma importância clínica. No caso dos seres amitocondriados de tipo I o piruvato é oxidado através da via glicolítica. O piruvato é convertido numa mistura de etanol e de acetato. Nos amitocondriados de tipo II ocorrem as mesmas conversões, apesar de ser no hidrogenossomas, e a re-oxidação da enzima responsável pela oxidação do piruvato resulta na produção de H2.
No caso dos eucariotas mitocondriados ocorre formação do piruvato através da glicólise; o piruvato pode ser oxidado através da respiração aeróbia ou então seguir uma via fermentativa, tal como acontece nas nossas células musculares após exercício físico intenso, ocorrendo fermentação com a produção de lactato.
Todas as enzimas necessárias para estas reações, assim como os genes que as codificam, podem ser associados a bactérias, pelo que se conclui a existência prévia de genes bacterianos em eucariontes amitocondriados. Um corolário desta hipótese é que a associação endossimbiótica é necessária para a existência de seres eucariontes, não se observando nada que indique que as relações endossimbióticas foram apenas um acidente que curiosamente tenha acontecido e prevalecido somente em células que possuíam previamente características eucarióticas.
Aceitando agora que a simbiose entre bactéria e archaea foi o passo decisivo para o aparecimento dos eucariontes, é necessário perceber as razões que levaram a tão extraordinariamente robusta relação.
Costuma-se dizer – e foi assim como eu aprendi no Secundário – que na relação endossimbiótica que levou ao aparecimento dos eucariotas a relação era vantajosa tanto para o hospedeiro como para o simbionte. Dizia-se que o simbionte produzia energia sob a forma de ATP que passava a ser utilizada pelo hospedeiro que, como forma de pagamento, protegia o seu hóspede das vicissitudes dos conturbados ambientes ancestrais. Esta afirmação exige que se façam perguntas com implicações profundas:
- O simbionte produzia ATP a mais;
- O simbionte produzia ATP que era exportado para o hospedeiro;
- O hospedeiro talvez produzisse ATP a mais, dado que conseguia arranjar utilidade para o ATP produzido pelo simbionte.
Costuma-se dizer, e bem, que a Natureza é económica. Na Natureza tudo o que der despesa sem retorno é eliminado. Isto nota-se particularmente nas bactérias, que reduzem o tamanho do seu genoma rapidamente, dado que transcrever e traduzir genes que não têm aplicabilidade é um gasto totalmente desnecessário. Este princípio económico leva-nos a crer que a possibilidade de um simbionte produzir ATP a mais não faz sentido. Mais do que isso, seria um ato suicida possuir previamente proteínas que permitissem a exportação de ATP para o meio ambiente. E, caso esses exportadores não existissem antes do simbionte ser incorporado pelo hospedeiro, então não teria desde o início havido motivos para o estabelecimento de uma relação simbiótica deste tipo. O último ponto que incluí é referido no artigo onde é exposta a Hipótese do Hidrogénio, apesar de, no pouco conhecimento que tenho, isso não me parecer ser um grande problema relativamente à importância do ATP no estabelecimento desta relação; mesmo produzindo o simbionte ATP suficiente, parece-me sensato que um aumento da concentração de ATP pudesse ser aproveitado pelo hospedeiro, podendo ter inclusive consequências como a eliminação de alguma via metabólica. Seja como for, isto é especulação minha. E mais importante ainda, as refutações dos dois primeiros pontos são fortes o suficiente para se afirmar que o ATP não teve nenhum papel no estabelecimento da relação endossimbiótica.
Os autores desta hipótese consideraram uma relação sintrófica (um organismo a utilizar os produtos excretados por outro como nutrientes) como solução para a impossibilidade de utilizar o ATP como justificação. É conhecido que algumas bactérias, que podem ser tanto aeróbias como anaeróbias, têm um metabolismo tal que um dos seus produtos de excreção é o hidrogénio molecular (H2). Convenientemente, existem archaeas, tais como os metanogénios – que são o tipo de archaeas que os autores sugerem terem participado nesta relação – que utilizam o hidrogénio molecular como substrato do seu metabolismo. A relação plausível entre duas bactérias com estes dois tipos de metabolismo é uma relação sintrófica em que o hospedeiro pode alimentar-se a partir dos produtos de excreção do hospedeiro. Para além do hidrogénio molecular, as archaeas também conseguem utilizar outros produtos de excreção bacterianos tais como o dióxido de carbono, o ácido fórmico e o acetato. Por uma questão de simplicidade de ora em diante falarei apenas de H2.
Esta relação não só é teoricamente possível, mas também documentada. Um caso fenomenal é de uma simbiose em cadeia, em que um inseto possui no seu tubo digestivo um eucarionte anaeróbio (Nyctotherus ovalis) que, por sua vez, possui bactérias que se alimentam do produto dos seus hidrogenossomas (ler mais aqui).
Dado que bactérias que produzem hidrogénio podem ser aeróbias ou anaeróbias, é concebível que bactérias e archaeas com as características já enunciadas se tenham encontrado, dado que sobrevivem em ambientes com as mesmas características. No entanto, a incorporação por parte da archaea anaeróbia de um simbionte que pode ser aeróbio garante a possibilidade de ambos os organismos escaparem dos ambientes anóxicos. Essa fuga, a ser feita – e se a hipótese for correta, foi feita – selou o destino desta relação, tornando-os inseparáveis, pois sem o simbionte o hospedeiro não conseguiria sobreviver no ambiente com oxigénio. Seja como for, o simbionte poderia escapar-se, e aqui tem que se atirar ao ar que a relação também seria de certo modo conveniente para o simbionte.
A evolução da relação sintrófica para a endossimbiose não pode ter sido uma relação imediata. Coloca-se aqui um problema curioso: como é que pode ter havido incorporação da bactéria pela archaea se a archaea não tem citoplasma para que a fagocitose ocorra? Não se sabe.
Martin e Müller, apesar de não conseguirem responder a essa questão, sugerem que a relação se tornou endossimbiótica devido à pressão seletiva que existia para o hospedeiro conseguir obter a maior quantidade possível de hidrogénio proveniente da bactéria. A melhor maneira de conseguir isso seria através do aumento da área de contacto entre archaea e bactéria. Propõe-se assim que a evolução da relação se deu de um modo semelhante a este:

O 1 é a bactéria, o 2 é a archaea. No último passo a bactéria encontra-se rodeada por uma membrana que tem a mesma forma que a membrana da archaea precisamente para lembrar as origens da mesma. As setas representam o fluxo de produtos de excreção da bactéria para a archaea. Creio que se percebe que a sequência é para ser vista: retângulos da primeira linha da esquerda para a direita, seguido dos retângulos da segunda linha da esquerda para a direita.
Olhando para esta imagem é necessário reter dois pontos: qual quer que tenha sido o processo responsável pela incorporação da bactéria na archaea, tal não pode ser apelidado de fagocitose, pois a archaea não possui um citoesqueleto que lhe permita tal. Para além disso, parece ser necessário que a archaea que participou neste processo não tenha uma parede celular. Isto não é um problema grande para a hipótese porque há archaea, tais como as Thermoplasma, que não possuem parede celular. O outro ponto que vale a pena considerar é o facto da bactéria incorporada na archaea ficar com duas membranas. Este ponto é importante porque tanto as mitocôndrias como os hidrogenossomas (e isto faz sentido dado que ambos os organelos têm um ancestral comum) têm membranas duplas. Seja como for, esta evidência não é favorável a esta hipótese em particular, é apenas favorável à hipótese praticamente incontestada de que as bactérias são o resultado de endossimbiose.
Apesar da imagem mostrar um processo que parece ser relativamente simples, a verdade é que não o é, dado que existem duas pressões seletivas a atuar em sentidos opostos: uma pressiona o hospedeiro a obter mais H2 por parte do simbionte, o que implica aumentar a área de contacto entre ambos. A outra pressiona a bactéria a obter mais nutrientes, o que implicar aumentar a área de contacto desta célula com o ambiente. Se a bactéria não conseguir obter nutrientes suficientes, tanto bactéria como archaea acabarão por sofrer as consequências. Poder-se-ia alegar que a archaea podia incorporar os nutrientes necessários à bactéria e, do mesmo modo que a bactéria transfere o H2 para a archaea, também a archaea poderia transferir esses nutrientes para a bactéria. O problema é que enquanto a archaea é autotrófica (no caso dos metanogénios o carbono é fixado a partir de CO2), a bactéria é heterotrófica. Isto significa que a bactéria tem mecanismos para importar moléculas orgânicas relativamente complexas, ao passo que a archaea não.
Este problema tem a particularidade de aparentar ser a solução para outra questão, que é a existência de genes nucleares eubacterianos. Um modo possível de contornar este problema da importação de macromoléculas é a transferência de genes bacterianos para os genes da archaea (e a transferência de genes não é um fenómeno particularmente raro, basta pensar que isso acontece ao caro leitor de cada vez que apanha uma “virose”); esses genes codificariam para o sistema de importação de macromoléculas. Desde que os sistemas genéticos bacterianos e das archaeas sejam compatíveis, não parece um fenómeno extremamente pouco provável de acontecer.
Mas, como é óbvio e expectável, tal como em qualquer grande novela, a solução para um problema é a origem de outro. As archaea hospedeiras, como seres autotróficos que teriam que ser, têm um metabolismo dedicado à síntese de macromoléculas. A partir do momento em que começasse a importar essas macromoléculas, o equilíbrio das reações metabólicas poderia ser afetado, resultando na reversão do sentido das reações. Isto é, as macromoléculas seriam convertidas a moléculas simples que não teriam uso para o simbionte, que desse modo não poderia produzir um dos substratos necessários para o metabolismo do hospedeiro. Um cenário bastante negro. Uma solução para este problema é a criação de um sistema de regulação genética. Não é impossível, mas exige que se diga de um modo muito abstrato que houve evolução, e nós não queremos aqui isso.
Outra possível solução é a transferência do metabolismo (ou de parte do mesmo) para o citosol do hospedeiro. Isto provocaria uma situação semelhante à anterior; a diferença é que na primeira o metabolismo pararia, e nesta andaria aos círculos. Os autores sugerem que eventualmente tal resultaria na eliminação por seleção natural de uma das vias metabólicas, nomeadamente da via autotrófica. Isto poderá ser suportado pelo facto de não existirem células eucarióticas que consigam realizar autotrofia no citoplasma. Esta última frase também foi especulação minha.
Com a eliminação da via autotrófica acontece uma coisa engraçada: deixa de haver necessidade de usar o H2 como substrato. As reações metabólicas que ocorrem passam a ser todas heterotróficas. As membranas celulares, já com os importadores emprestados pelas bactérias, conseguem obter macromoléculas passíveis de serem degradadas pelas enzimas que já se encontram também no citoplasma. O simbionte passa então a ser um organelo que tem como produto de excreção o hidrogénio molecular. Uma característica que é partilhada com os hidrogenossomas. Os autores realçam as semelhanças entre este hipotético organismo e a Trichomona vaginalis, que é um organismo que produz piruvato no seu citoplasma, piruvato esse que é oxidado com produção de hidrogénio no hidrogenossoma.
Tomando o que foi dito em consideração, aparentemente esta hipótese até parece fazer sentido. Contudo, e tendo em consideração o último parágrafo, parece que esta hipótese explica apenas aquilo que se observa em organismos que possuem hidrogenossomas. E então as mitocôndrias per se? Como foi dito, o simbionte teria que ser um organismo com alguma flexibilidade metabólica, entre as quais a capacidade de utilizar oxigénio e de conseguir também sobreviver em ambientes anaeróbios.

A bactéria Rhodobacter spheroides é um exemplo vivo de uma bactéria com uma flexibilidade metabólica invejável: consegue obter energia por fotossíntese, litotrofia, respiração aeróbia e respiração anaeróbia. E ficamos nós espantados com pessoas que fazem mergulho em apneia.
A capacidade do simbionte de sobreviver em ambientes oxigenados permitiu, como já foi referido, a fuga dos organismos simbióticos para ambientes oxigenados. Lá, a produção de hidrogénio por parte do simbionte seria algo absolutamente necessário. Mas a capacidade do simbionte utilizar oxigénio como modo de produção de energia não seria uma necessidade mas, a ocorrer, seria uma vantagem. Uma vantagem de tal forma grande que permitiria à relação simbiótica entre os dois organismos dominar o nicho ecológico dos ambientes oxigenados.
Por esse motivo, talvez seja verosímil que com o passar do tempo os mecanismos metabólicos para a utilização de oxigénio não tenham sido perdidos, como por vezes são perdidos mecanismos que num dado momento e situação se tornam um fardo energético desnecessário. Aqui exige-se contudo invocar uma invenção evolutiva, nomeadamente um sistema de transporte de ATP para o exterior da mitocôndria, tal como os que são encontrados nos organismos atuais. É interessante notar que estes exportadores de ATP, que são encontrados tanto nas mitocôndrias como nos hidrogenossomas, apontam para uma origem comum de ambos os organelos, fortalecendo a hipótese de que não houve evolução independente de relações simbióticas no caso dos organismos mitocondriados e amitocondriados de tipo I.
Há casos documentados em que organismos que antes possuíam mitocôndria passaram a ser organismos anaeróbios. Do mesmo modo que a capacidade para a respiração aeróbia tenha que ter sido preservada durante o momento em que não foi ativamente utilizada, é necessário justificar também que motivos podem ter levado à manutenção de enzimas que são necessárias apenas em situações anaeróbias. Apesar de não ser completamente certo, os autores invocam uma coisa que há alguma tendência a ser esquecida: as enzimas podem ter diferentes funções em situações diferentes. Desse modo, é possível que enzimas que sejam utilizadas durante o metabolismo anaeróbia como mecanismos necessários para a obtenção de energia sejam, num ambiente aeróbio, utilizadas noutras funções.
Em conclusão, os autores desta hipótese conseguem justificar o aparecimento das células eucarióticas sem terem que invocar nenhuma grande invenção evolutiva. Esta hipótese não consegue explicar a origem das características típicas dos eucariotas, tais como o núcleo em si e os outros organelos característicos (sobre possíveis origens do núcleo encontrei este artigo, escrito por um dos autores da Hipótese do Hidrogénio. Pelo menos o nome é igual); não consegue também explicar o porquê das membranas das células eucarióticas serem mais semelhantes às bacterianas do que às das archaea. No entanto, faz avanços interessantes principalmente no modo como se olha para a origem destas relações. O metabolismo da relação passou a ser o guia para o estudo da evolução dos eucariontes, em vez das estruturas membranares dos eucariontes. A origem da mitocôndria/hidrogenossoma ocupa também nesta hipótese um papel que não ocupava em hipóteses anteriores; hipóteses anteriores consideravam que a endossimbiose era um fenómenos subsequente à origem das estruturas eucariontes, e esta hipótese parte precisamente da premissa oposta.
Este é um assunto que eu acho particularmente fascinante, e recomendo a leitura do artigo original (Martin, W., & Müller, M. (1998). The hydrogen hypothesis for the first eukaryote. Nature, 392(6671), 37–41. doi:10.1038/32096).
*Carl Woese, o cientista que distingiu as bactérias das archaea, morreu há pouco tempo (30 de Dezembro de 2012) no mesmo dia em que faleceu Rita Levi-Montalcini, a vencedora do Prémio Nobel da Medicina por ter descoberto os nerve growth factors, ou fatores de crescimento dos nervos numa tradução literal.